domingo, 12 de março de 2017

Heráclito e Parmênides

Dois grandes filósofos, dois pré-socráticos. Enquanto um defende que o mundo é um Continuum, um puro devir, tudo é continuidade, tudo é fluxo, tudo muda, que "a imutabilidade é uma ilusão", o outro, defendia o mundo, o SER das coisas, como UNO, infinito, imutável, isso significando que tudo é fixo, tudo  é sempre idêntico a si mesmo, que nada muda. E agora eu lhe pergunto, estas ideias são Opostas ou Contraditórias? Eis a questão sobre estes dois ícones da filosofia grega, Heráclito e Parmênides. 


Um pouco complicado? Parece que é, mas não tanto! Vamos desenhar!? 

Uma reta se inicia no ponto, o ponto representa uma dimensão, com dois pontos traçamos uma reta, com três pontos temos um plano, um triângulo. Olha a Matemática aí gente!

Na metáfora da vela acesa, Heráclito diz que quando acendemos uma vela e ela começa a queimar, temos a impressão de que ela é sempre a mesma vela. Mas, tudo o que estamos vendo ali diante nós, a vela queimando, é um processo contínuo de transformação:


A cera vira fogo, o fogo vira fumaça, e a fumaça se dissipa e vira ar. Tudo está em mudança contínua. Esse é o eterno fluxo de Heráclito. A única coisa que é permanente é essa mudança contínua, o devir, que significa transformação. E ele tem razão! - ou Não?


O universo está em constante movimento, em constante devir. Um devir que é impulsionado por forças contrárias que encontramos na vida: dia e noite, nascer e morrer, ser jovem e ser idoso, o bem e o mal, o bonito e o feio, e etc.


A ordem dos contrários exerce o poder da harmonia no universo, num eterno devir. É um lei de justiça, "Justiça Suprema", afirma o filósofo Heráclito. Pode-se dizer um jogo, o jogo da vida, que nós pouco, e em alguns casos, nenhum controle temos sobre ele. 


E Heráclito concebe o FOGO como princípio eterno da mudança e DEUS como a harmonia dos contrários. Em termos científicos, o pensamento de Heráclito é atual. O pensamento dele dá base ao materialismo, enfatiza a dinâmica da matéria, que é comprovada.

Símbolo Celta do elemento Fogo
Parmênides, não satisfeito com o sistema filosófico de Heráclito, fez oposição a ele. - Nan-nanim-nanão! As aparências, Heráclito, nos enganam, elas fazem parte do Não-SER. Isso mesmo gente, o Não-SER, aquilo que não é. Agora complicou? - Calma, tenha calma, logo você vai entender.


“O Ser é, e o Não-Ser não é”, configura o pensamento de Parmênides. E para entendermos tudo isso é preciso primeiro saber o significado de Ser para o filósofo Parmênides.

Então vamos lá... quando afirmamos algo sobre alguma coisa estamos conferindo predicativo, isto é, afirmamos qualidade a uma coisa ou pessoa, ou estamos atestando que coisa ou pessoa existe. Por exemplo: Marcos é professor, aquela flor é vermelha – isso é qualidade. Agora, quando afirmo "o Marcos é", "a flor é" - isso é existência, a coisa é. É esse sentido o Ser do filósofo Parmênides, o Ser é tudo que pode ser pensado, que pode ser conhecido. Daí, o Ser é Uno, é único, é também indivisível, e imutável, porque se mudasse deixaria de ser o que é. Quer um exemplo? - nossas impressões digitais são únicas em cada indivíduo, e perduram do nascimento até o fim da vida. Afirmarm Unicidade e Imutabilidade do Ser.  


digitais

Essas ideias podem parecer um pouco confusas, eu sei. "Tudo muda. Nada muda", e aí como fica? Tudo é Fluxo ou Tudo é Fixo? 



A verdade é que ainda não sabemos, não descobrimos tudo, há muitos mistérios. Mas, uma coisa é certa, precisamos estar atentos, deixar de ser mal acostumados em crer que o que é real é somente o que se vê, o que se ouve, o que se pode cheirar ou tocar, ou degustar, enfim, precisamos ser capazes, sempre, de transcender, ir além dos nossos sentidos. Mas, sem perder de vista que este mesmo mundo dos sentidos é o mundo em que as mudanças acontecem o tempo todo, e todo o tempo, e o mais importante, as mudança nos afetam.

Acontece que Parmênides nega a mudança, o devir de Heráclito. Ele diz que tudo isso, a mudança é uma ilusão das aparências (é o Não-Ser, o oposto do Ser), é um engano da nossa percepção que tem origem nos sentidos. Sim, caros estudantes, o filósofo Parmênides considera o conhecimento sensível inferior. Pois, o Ser, o verdadeiro, só poder ser alcançado, conhecido, pelo pensamento, por nossa razão, o nosso intelecto. Os sentidos só conseguem nos levar ao Caminho da Opinião (doxa). Somente o pensar, o intelecto, pode levar-nos ao Caminho da Verdade (Aletheia), ao Ser.


O filósofo Parmênides, desta forma, extrapola o seu filosofar, culminando no princípio do racionalismo exagerado, pois afirma que “a mesma coisa é pensar e ser”. Isso mesmo, não diferencia pensar e ser.  



Para ele, a natureza é composta de duas qualidades, o positivo e o negativo. Ele definia, por exemplo, que a escuridão nada mais era que a negação da luz, diferente do filósofo Heráclito que considerava um a alternância do outro, assim como bem e mal, dia e noite, quente e frio, bonito e feio, etc. 
Mas, pense um pouco, Parmênides, que não era nenhum bobo, também considerava a mudança, porém, via a mudança, o Vir-a-Ser, apenas como uma mistura do Ser e o Não-Ser. Sim, o Vir-a-Ser como mistura daquilo que é verdadeiro(aletheia) com aquilo que é ilusão(doxa)

Mistura gente! O Vir-a-Ser é como muita "mágica" por aí. Verdade e ilusão juntas. Se é que me entendem!

O filósofo Parmênides afirma que são as percepções dos nossos sentidos (que falham) que criam essas ilusões. Vamos desenhar novamente? Vou relacionar o sistema de Parmênides, essa relação Ser e Não-Ser, o Vir-a-Sercom algo que acontece muito na vida:

"um casal que declara amor até o fim, faz votos de compromisso, e tudo e tal...casam-se, 
de um momento para outro surge o conflito, a comunicação não funciona mais. 
O conflito cresce, a raiva aparece, e a separação quase acontece. 
Mas, num belo dia, um dos dois resolve pensar e refletindo procura o outro e, 
no encontro a comunicação se restabelece,
o conflito se separa da raiva, e o casal permanece."

É... essa uma história de muitos por aí. Mas, o que nos interessa é que nela pode-se perceber "O Ser e Não-SER, e a relação entre Verdade e Ilusão, o Vir-a-Ser, de Parmênides." - Essa tarefa eu deixo para você. Identifique o Ser, e o Não-Ser, e também o Vir-a-Ser, nessa situação hipotética.

Muita informação caros estudantes? Mas, fiquem atentos: perceberam que agora os filósofos conduziram o questionamento para outro caminho? - Do que é feito o mundo? para O que é o mundo?.

Estudantes são guerreiros. Guerreiros que precisam lutar e vencer os obstáculos e desafios do conhecimento. E o bom combate leva ao saber.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Mito e Logos

Mito e Logos - Ruptura ou Continuidade?


O Sonho de Ícaro
(Narrativa adaptada - Prof. Marcos de Melo)


Dédalo, inventor e grande engenheiro, preso na Ilha de Creta, juntamente com o filho Ícaro, buscava no "ócio" uma ideia que possibilitasse a fuga de ambos da "prisão sem grades", cercada de penhascos mortais e tubarões.

Muito criativo, alcançou a ideia de voar. Voar, voar, eis a chave da "prisão sem grades".
Utilizando-se de penas de gaivotas, gravetos de arbustos e resinas mineral e vegetal, iniciou a concretização do "Sonho de Ícaro", que passou toda a infância sem conhecer o que é ser livre.
Agora jovem, a ideia e os cuidados do pai davam-lhe a esperança. 

Enquanto Dédalo planejava e construía as asas, aconselhava Ícaro dos perigos do voo da liberdade. E advertia o filho: "Se voar muito alto, o Sol derreteria a cera e as penas se soltariam, cairia no mar, encontraria a morte. Se voar muito baixo, as ondas do mar tornar-se-iam úmidas as penas, e pesadas as asas não conseguiria sustentar o voo, cairia no mar, encontraria a morte."
Ícaro, não ouvira os conselhos e advertências do pai, voou alto, caiu no mar, morreu!

istória da Filosofia


Mito vem do grego μυθος, transliterado para o latim Mythus, que significa "narrativa".

Do ponto de vista histórico pode-se distinguir três significados para o termo Mito:

1º - forma atenuada de intelectualidade;
2º - forma autônoma de pensamento ou de vida;
3º - como instrumento de estudo da sociedade.

Na Antiguidade Clássica, o Mito foi considerado como atividade intelectual inferior, deformada. O Mito era capaz apenas de aproximar da verdade (verossimilhança). Somente a razão poderia alcançar a verdade.
 O Mito era considerado como um tipo de "verdade imperfeita" com significado moral ou religioso muito claro. Por meio dele, o Mito, poder-se-ia ensinar condutas de relações humanas ou mesmo em relação à divindade.



O que é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.). (Chauí, Convite à Filosofia, 2000)

E as "narrativas" sobre as origens e organização do mundo, por forças geradoras divinas, são chamadas de Cosmogonias. 

Enquanto as "narrativas" sobre as origens dos deuses, são chamadas de Teogonias.


     Filosofando...
Ora, se as "narrativas" mitológicas não são lendas, então as alegorias, as fantasias, o impossível, o inexplicável, o maravilhoso, o sobrenatural e, toda destreza poética de uma língua podem servir ao discurso, à tradição, para fins de educar o ser humano?

Pensemos um pouco os mitos da atualidade:


O Superman, por exemplo, nas produções cinematográficas dos poderes superiores ao homem comum, espelha virtudes que nós seres humanos podemos alcançar. 

A Mulher Maravilha, superpoderosa, com seu laço da verdade e postura de guerreira, mostra ao mundo um novo tipo de mulher, uma que é capaz de governar.


Porém, os Mitos, ou a força deles, na atualidade, em razão das "novas tecnologias" que possibilitam ser reconfigurados dia a dia, até mesmo repaginados de um momento para outro, tornaram-se hoje instrumentos eficientes e de grande eficácia no marketing de "ideologias dominantes", que nem mesmo na Antiguidade, ou noutra época da história da humanidade, foi capaz de promover tão tamanha alienação tal qual encontra-se o mundo hoje.

Uma coisa é certa: podemos perceber que o Mito se relaciona com a Razão(Logos). 
Demonstra nossa capacidade de perceber a realidade refletindo sobre ela e nós mesmos, e portanto, também revela nossa habilidade de estabelecer o conhecimento a partir de caminhos diversos. 

Podemos conhecer pela contemplação, pela fé, pela intuição, pela simples observação, pela experiência sensorial, pela lógica do pensamento, pelo método científico rigoroso, ou mesmo filosofando.

Ciência, Religião e Filosofia, quando integradas, torna-se um caminho para o conhecimento autêntico, verdadeiro, sobre todas as coisas e nós mesmos, ao menos no limite de nossa capacidade de conhecer.

Os Pré-Socráticos - Filósofos da Natureza

Do que é feito o Universo?

O Pequeno Príncipe
A pergunta acima é recorrente na humanidade. Muito embora tenhamos alcançado respostas consideradas avançadas pelas ciências da natureza, essa questão ainda provoca nosso íntimo. - Você tem dúvida? Dirija seu olhar para a imensidão do Cosmo!

"Do que é feito o mundo?" representa a mudança do pensamento humano conduzindo o homem à "continuidade" das explicações das coisas, porém não mais pelas ações dos deuses, não mais pela crença religiosa, e sim por si mesmo. Esta aparentemente simples questão filosófica fez romper barreiras do pensamento humano. Foi Tales de Mileto que colocou em curso o início do pensamento científico e, suas respostas, pode-se dizer, estabeleceu as relações entre Filosofia e Ciência que perduram até os dias de hoje.

Enquanto Tales de Mileto (624-546 a.C) empreende a busca pelo archè, o elemento primordial, Pitágoras (570-495 a.C), promove outra mudança no pensamento da época, buscando explicar o mundo por meio da matemática. Pitágoras, e os adeptos de sua doutrina, trataram de descrever o Cosmos através dos números, da geometria e suas relações. A realidade dada pela matemática. E precisamos reconhecer! - De fato, o mundo, as coisas, e a própria vida humana são totalmente matematizáveis.






   Filosofando...



Imagine você tentando responder "Do que é feito o mundo?". E acredite, pode até parecer, mas esta não é uma questão simples. Exigiria de você uma intensa ação investigativa, dedicação e tempo, e tudo se iniciaria pela observação. Mas, preciso lembrá-lo: naquela época não havia a tecnologia que temos hoje. Tudo teria que partir da sua capacidade de observação. E foi assim que Tales de Mileto chegou a uma outra ideia, a de que deve haver um elemento básico do cosmos!?  Ele percebeu que tudo no universo poderia ser reduzido a uma única substância fundamental, que os pré-socráticos deram o nome de archè (princípio,origem, matriz).


Tales conclui que a substância fundamental teria que ser a matriz a partir do qual tudo o mais pudesse dela originar. Essa mesma substância deveria ser essencial para a vida, ser dinâmica, capaz de mudança. Assim, Tales, encontrou na água a resposta para o archè

Agora, reflita um pouco sobre a água...

Tales deduziu que toda matéria, independente de suas propriedades, deve ser água em algum ponto de sua transformação. Concluiu que "Tudo é composto de água".



Pitágoras (570-495 a.C), concluiu que todo o cosmos é governado por regras matemáticas. O número pode explicar a estrutura do cosmos. 
Com isso, Pitágoras, desloca a teoria da substância fundamental para a forma, mas não a rejeita. Para ele "o número é o regente das formas."

Seria redundante afirmar aqui da importância da matemática em nossas vidas. Estamos mergulhados nela. Pense um pouco...

Basta olhar-mos à volta, nosso corpo, nossa linguagem, tudo é matematizável.




Construindo Conceitos

Monismo - doutrina filosófica que defende que tudo no universo pode ser reduzido basicamente a uma única substância.

O Surgimento da Filosofia

O Nascimento da Filosofia no Mundo Grego Antigo


A Grécia Antiga surgiu no Sul da Península Balcânica dominando, posteriormente, regiões vizinhas como a Península Itálica, a Ásia Menor e Ilhas do Mar Egeu, constituindo assim o Mundo Grego. Com o passar do tempo várias cidades politicamente independentes (cidades-estado) foram surgindo fundando práticas e costumes que resultaram numa nova feição do mundo ocidental. As pólis gregas atestavam grande riqueza cultural, construindo um verdadeiro mosaico de diversidade cultural no Ocidente. Porém, a autonomia das cidades-estado, com suas diferenças culturais, muitas vezes levaram a conflitos políticos e também bélicos. E foi devidamente este desgaste que os enfraqueceram abrindo portas a dominação do macedônico Alexandre "O Grande". Mas, o Imperador Macedônico, entusiasta da cultura grega, fez disseminar toda essa cultura no seu movimento expansionista. E quando dominado pelo Império Romano a cultura grega ainda assim continuou a balizar a formação das ideias e valores do Ocidente, daquela época até os dias atuais.

Teorias do Surgimento da Filosofia

"Espanto"

Hipótese do Espanto (Aristóteles)

Aristóteles, filósofo grego do século III a.C, foi um dos primeiros a investigar o tema filosofia. No livro Metafísica buscou evidenciar o que seria a Filosofia e traçou as características do filósofo.

Para Aristóteles a filosofia é algo da natureza do próprio ser humano. O homem deseja conhecer as coisas, quer saber sobre o mundo em que vive, se interessa pelo conhecimento de si mesmo. É justamente, diz Aristóteles, esta atitude de querer conhecer a realidade que o leva a filosofia. E para o filósofo de Estagira, o ponto inicial para começar a filosofar é o "espanto".

Teoria do "Milagre Grego"

Deuses do Olimpo

Os gregos antigos, de súbito, num movimento de ruptura, abandonaram as explicações míticas, religiosas, e crenças sobrenaturais, que lhes explicavam o mundo, a realidade da vida. De um momento para outro assumiram o domínio da razão e iniciaram a filosofia.

A "Filosofia é filha da Cidade." (Jean-Pierre Vernant)

Pólis

O surgimento da Pólis está diretamente relacionado com o nascimento da Filosofia. O surgimento da cidade transformou completamente a vida social e as relações humanas exingindo uma nova postura de pensamento do homem.
Acontecimentos que marcaram a história da humanidade, que não aconteceram de repente, e levaram séculos para se consolidarem, faz-nos pensar o surgimento da Filosofia como um processo longo.

Ágora - Praça Pública

A ágora, que permitiu a manifestação pública do pensamento na palavra, livre da "narrativa mítica", mesmo que carregada de conflitos, permitia a controvérsia, a discussão, o argumento, e fez gerar os debates políticos que permitiram ao homem a construção de seu próprio destino. A ágora representa a consolidação do nascimento da Filosofia.

Filosofia - o que é?


FILOSOFIA vem do grego: Φιλοσοφία


Etimologicamente tem o seguinte significado sintético: 
philos ou philia que quer dizer amor ou amizade; 
e sophia, que significa sabedoria; 
ou seja, literalmente significa:


Philos + Sophia =

"amor ou amizade pela sabedoria".


istória da Filosofia

A invenção da palavra Filosofia é atribuida ao grego Pitágoras de Samos, que viveu no século V antes de Cristo. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se assim filósofos

Outra versão...

A palavra Filosofia teria surgido com Tales de Mileto, aproximadamente em 595 antes de Cristo, e somente ganhou um sentido especial com Pitágoras.

Atividades:

  • Fórum - Filosofia 1
  • Sala de Testes - Filosofia